10:17h.
Toca o telefone no escritório.
- Bagarai Representações, bom dia.
- Bom dia, meu amor, é a Sílvia, tudo bem?
- Oi, Silvia. Tudo bem, minha querida. E você?
- Tô te ligando pra fazer um convite.
- Então faz.
- Quer almoçar comigo hoje?
- Ih, tô enrolado aqui. Muuuuito trabalho........... se for amanhã, tem algum problema pra você?
- Não, pode ser amanhã.
- Então...
- Então tá combinado.
- Combinado.
- Um beijo!
- Beijo.
No dia seguinte, 10:12h.
Toca o mesmo telefone.
- Bagarai, bom dia.
- Oi, sou eu...
- Quem? ... ah, oi Silvia, tudo bem?
- Tudo. Tô ligando pra saber que horas a gente vai.
- Meio-dia?
- Pode ser mais tarde?
- Pode.
- Uma hora é muito tarde?
- Não.
- Uma hora, então?
- Tá, uma hora.
- Beijo.
- Beijo.
14:19h.
No carro, seguindo de volta à Bagarai Representações.
- E aí? Você me convidou pra almoçar querendo que eu te agarrasse, né?
- Que isso, Paulo!
- Que que é? Vai negar agora, é?
- Tem que tentar não parecer, pelo menos... agora você vai ficar me achando oferecida. Hmm?
- Eu? Eu tô é perdido, agora, porque se eu não fizer nada você vai espalhar que eu sou brocha. Viu? Que situação?
- Ah, pára, eu nunca ia dizer isso.
- Eu sei, eu sei.
Cinco dias depois, 8:13h.
Num corredor da Bagarai Representações.
- Beth!
- Paulo!
- Pô, você não aparece mais aqui!
- Ah, mas hoje eu vim tomar café com o pessoal. Tenho uma coisa pra te contar... quer saber?
- Claro que quero, fala!
- A Silvia me disse que você foi almoçar com ela noutro dia...
- Foi mesmo?
- E não tentou N A D A, Paulo! Cade você, Paulo? Já não é mais o mesmo, hein? Deixa eu ir, querido. Um beijo!
- Um beijo, Beth...
[... é... já não sou...
... mesmo.]
Lendo este post, reflito sobre o conceito do interesse: o que nos leva a relacionarmos com alguém? Me refiro a qualquer tipo de relação, seja profissional, amistosa, fraterna ou sexual? O que nos leva a doarmos nosso tempo convivendo, conversando, mantendo um contato com alguém? O interesse é algo perigoso. Primeiro porque à primeira vista, esteticamente, pode enganar. Segundo, porque ele deveria estar intrínsecamente vinculado ao intelecto, que também pode enganar. Se estamos passíveis ao engano, penso: em que ponto nos permitimos uma frustação quanto a algo que não deveria ter o mínimo valor? Por que nos influenciamos por opiniões de seres que (se não me engano) não atingem o patamar do merecimento de atenção? Realmente a questão do ego, tanto para a rechaçada quanto para o rotulado, neste caso é patética. Paulo deveria sentir-se feliz, posto que não se rendeu aos apelos de Silvia. Salvo pelo gongo! Esta deveria sentir-se envergonhada! E Beth... Beth poderia desaparecer, pois não faria falta, nem ela, nem sua língua. Quanto a Bagarai, meu caro, poderia explodir com Beth dentro.
ResponderExcluirPense: [...Somos quem podemos ser...]
Em última instância (ou na camada mais interna da cebola), o interesse traduz-se no que Freud chamou de pulsão. Diferente do que muitos pensam, a pulsão não corresponde ao impulso sexual. Pelo menos não somente a ele. Talvez seu conceito pudesse ser melhor traduzido por uma palavra que adoro, mas tem seu uso atualmente restrito ao significado de "disposição". Repara: VITALIDADE. Todo ser vivo tem esse caráter, obviamente. E o fato de estarmos vivos, provocar em nós o desejo de permanecermos vivos e mais: ... "Mais VIDA, porque é preciso!". Os seres vivos realizam sua pulsão se relacionando com outros seres; vivos ou não, a tal Ecologia.
ResponderExcluirEntre os seres humanos, essas relações se traduzem em diferentes níveis de "interesse". Tudo o que desejamos, o que buscamos, o que nos motiva traduz-se num interesse específico. Interesse material (comida, teto, conforto), espiritual (comunhão, remissão, benção), sexual, amoroso, fraterno, profissional, intelectual, cultural, político etc. Portanto, se você não se interessa por nada, cuidado: você pode estar morta.
Ademais, a moral de antigamente, aquela fundamentada em mitos nos quais já não podemos nos apoiar, aquela que depõe contra a nova ordem psicológica a que os seres humanos têm acesso hoje (vejam a intransigência dos jovens cada vez mais jovens), a que queimou bruxas e cientistas já não nos serve mais. Ironicamente, achamos normal um casal de homossexuais ter um filho usando um pouco de sêmen e uma barriga de aluguel, mas a menina se oferecer "não podge". Mentira! "Podge!". E deve, porque está sendo honesta consigo mesma e com aquele que motivou seu interesse. O que "não podge" é ela jogar toda a beleza de sua honesta proposta fora recriminando-o publicamente, pretendendo denotar que ele sofre de qualquer vício apenas porque ele não quis, não correspondeu ao interesse dela, porque ela transforma o interesse, essa coisa maravilhosa que nos põe de pé todos os dias, numa coisa que não sei adjetivar. Na minha opinião, aí é que está o Q da questão. Se ele se importa ou não com o que ela diz, se apenas lamenta ou se nem disso é capaz, trata-se apenas uma questão de interesse.
Em suma, o interesse vai muito além da camada do intelecto e, certameeeente, passa pelo ego, mas atravessa também outro valor, que talvez seja nossa maior carência atualmente: a ética. Paulo deveria sentir-se feliz porque fez aquilo que desejava ou não fez aquilo que não desejava, porque foi honesto; mas não porque resistiu à "tentação". Esta representa a "periculosidade" de que você trata, mas no meu entendimento chama-se interesse e em sua realização reside a tão sonhada felicidade (Que felicidade comer aquele doce!) Mas o "patético" aparenta-se retiscente, sem saber ao certo se lamenta ou comemora. Manifesta já sua inclinação ética, mas sofre ainda (sobremaneira no próprio ego) as pressões da moral de quinhentos anos atrás, quando aquele valor não figurava nos códices. Quanto à Silvia, deveria sentir-se feliz pela resposta sincera, pela oportunidade de haver estabelecido um contato honesto de parte a parte, criado um laço verdadeiro (em detrimento do próprio ego), ainda que superficial, cujos desdobramentos poderiam despertar renovados interesses.
ResponderExcluirJá as "Beths, mal podem enunciar seus próprios interesses e talvez o psicanalista francês tenha algo que as possa interessar.
E, last but not least, fiiiiiiiiiuuuuu-boooooooom !!!!!!!!!
Sinta: [... Sonhos que podemos ter ...]