Ando um pouco descompromissada com a vida e tenho me dedicado à leitura. Me impressiona quando leio uma frase que é minha mas foi escrita por outro; é como se eu tivesse um amigo que não conheço, alguém que me escuta e que me vê em segredo. Então sorrio compreendida e escrevo no meu diário aquela mesma frase, para jamais esquecê-la. Tenho também inventado estranhos hábitos. Às vezes acordo sem saber exatamente onde... Esta tentativa de experimentar novos gostos, novos corpos, novos tatos, tantos novos e novas me deixam exausta, pois é preciso muita concentração na coisa. Outro dia mesmo dormi numa cama nova e vos digo, queridos, que foi desafiador a perda da segurança de lugar, a perda da referência de casa: é como ser livre e não saber o que exatamente fazer com isto e, assim sendo, já não chamo de liberdade. Como está sendo novo agora escrever para vocês dois ao mesmo tempo, eu que sempre quis separar um do outro, como se separados eu tivesse um pouco mais de cada um e vocês bem sabem que eu quero tudo inteiro... Pois perceberam que esta carta tem tom sério? Será que esta sou eu, então, deixada de lado a roupa que me visto todos os dias e saio pra rua? Esta séria e ousada sou eu - me olho no espelho nua e até me acho bonita. Deve ser a maturidade chegando, qualquer coisa de aceitação e deslumbramento com si mesma, ou apenas uma preguiça conformista de domingo de manhã. Não, não é preguiça, é verdade. Sou mesmo bonita nua e estando certa disso penso que é uma pena ser privilégio de poucos (e de novos que esqueci o nome ao acordar livre). Talvez devesse andar nua pelas ruas - mas isto estragaria toda a beleza do privilégio, então é prudente não esgotar a surpresa enquanto É. Alice - não quero batizá-la outra vez porque perderia uma história boa de contar, mas poderei na nossa intimidade te chamar do que queira se isto te deixará alegre e a mim, satisfeita. Faroleiro-mágico-inventor: quer ser outra coisa também? Aproveita que estou para o novo e é o momento certo de escolher, só não pense que o que TEMOS, simplesmente vira passado quando se decide o futuro: no encadear dos tempos há um caminho. Estou enigmática ao dizer, e me vejo como uma estrela de cinema sentada de pernas cruzadas, um olhar blasè e um cigarro na mão esquerda. Esperem: esta fotografia não é minha pois não tem nada de nua. A cena é:
Mulher bonita diz. (Simples assim)
Vocês , por favor, sintam a paisagem como um lugar de beleza e verdade. E música - a que toca agora é assim: "Acabou chorare, ficou tudo lindo de manhã cedinho. Tudo cá, cá, cá, na fé, fé, fé. No bu bu li li, no bu bu lilindo, no bu bu bulindo..."
E acabou mesmo. Estou bem - para além das definições.
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