segunda-feira, 30 de março de 2009

Os nomes de Alice

* "...não se morre
uma só vez, nem de vez.
Restam sempre muitas vidas
para serem consumidas
na razão dos desencontros
de nosso sangue nos corpos
por onde vai dividido.
Ficam sempre muitas mortes
para serem longamente
reencarnadas noutro morto.
Mas estamos todos vivos.
E mais que vivos, alegres...
"


Sou feito de outros sangues,
reunidos em meu corpo e meu sangue, dividido em outros corpos,
misturado a outros sangues,
segue noutros, ainda mais distantes.

O nome que tenho deram-me. O dos meus, escolhi, tentando dar a eles outro destino. Afastei-os o mais que pude de mim mesmo, como se não fossem eu, também, a correr pelos gramados, a fazer estas perguntas, a temer e duvidar... Abençoada e Coragem.

Olha. Sou aquele menino pulando no gramado... e a menina que me interroga. Quando repondo não é para ela... é para mim que respondo, e em nome de todos que vieram antes, ainda que briguemos, ainda que neguemos o nosso próprio cheiro naquele velho de antes, ainda que as rodas, os risos, as mãos entrelaçadas já não se toquem mais.

Esta palidez, repetida em cada rosto, esta distância, devida, ainda que pareça injusta, é a força que nos põe adiante; é já a resposta que bradamos, a solução e a garantia de que eles também seguirão, quando as crianças voltarem a correr em volta de uma nova mesa. Então todo o riso será recobrado, a ciranda será recobrada, a alegria virá, renovada. E nossos braços, fortes, afeitos à luta, serão postos à prova. E esses mesmos braços, doces, feitos para o abraço, voltarão a abraçar.


* "Teu olho cansado,
mas afeito a ler no campo
uma lonjura de léguas,
e na lonjura uma rês
perdida no azul azul,
entrava-nos alma adentro
e via essa lama podre
e com pesar nos fitava
e com ira amaldiçoava
e com doçura perdoava
(perdoar é rito de pais
quando não seja de amantes).
E, pois, todo nos perdoando,
por dentro te regalavas
de ter filhos assim...
"


* Carlos Drummond de Andrade em "A mesa".

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