Ando mesmo recolhida, Faroleiro, é que estou esperando o
Futuro
que você me revelou noutra carta. Enquanto
Ele
não chega, dedico-me à uma nova aprendizagem: Faxina. Mas de verdade - não destas em que se pega tudo que não nos vale mais, se guarda numa caixa e, por preguiça ou apego, se encontra um canto para esquecê-la, como se esquecendo-a, ela não mais existisse. Porque troquei as coisas todas de lugar, a casa está às avessas e já não encontro nada facilmente. Imagina, então, o que acontece quando me chega algo urgente...
S-u-s-p-i-r-o: é difícil RESOL(VER) quando não se sabe ONDE a resposta está.
Pois inventei duas passagens secretas para estes casos:
ou dou outros sentidos para os nomes que sei,
.
.
.
ou esqueço o que sei dos nomes e fico apenas com os sentidos.
Me explico: Se estou com sede, ponho-me a procurar do que beber mas como baguncei tudo, não sei mais do lugar dos copos, das garrafas, das torneiras... Mas ainda sei o que é sede. E sinto. É nesta hora que vem a invenção: quando eu falo a palavra sede, o novo sentido que chega é o do desejo de dormir e então eu me deito (não importa se há cama) e a vontade passa. Às vezes isso não funciona e tenho que usar doutro artifício: apenas sinto o que é sede e esqueço o que é copo, o que é garrafa, o que é torneira, e, como não sei mas de nome nenhum, qualquer coisa que provo eu sinto que é água e a vontade passa também.
Veja que fato curioso: no mesmo dia em que o médico me disse que eu tenho uma cicatriz dentro do olho esquerdo, um moço que costumo ler escreveu que ultimamente tem passado muitos anos; Taí mais uma coisa para eu RESOL(VER).
Vou colocar no envelope um abraço pra você, Faroleiro. Ihhhhhh... Quando fui pegar o abraço já não estava ONDE e por não ter inventado nada para o tempo, ainda sei e sinto o que é pressa... Portanto, deixe-me ver o que tenho aqui por perto para lhe dar. Pronto: giz-de-cera....
Um giz-de-cera com afeto pra você,
Menina
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*Mesmo mudando as coisas de lugar, da caixa dos afetos eu sempre saberei: Está dentro. Infelizmente.
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