Outro dia fez uma manhã de sol tão bonita e tímida, destas raras alegriazinhas inesperadas. Bastou abrir a cortina para aqueles raios suaves acariciarem a pele, fazerem graça com os olhos só por pintar tudo de amarelo-claro e depois deixarem as cores desbotarem, lentamente. Em dias assim bate a vontade de espreguiçar o corpo estendendo até a última ponta dos dedos, coisa que muito funciona apoiando as mãos sobre o parapeito da janela e inclinando o quadril para trás... Ai que preguiça! Ai que vontade de tempo!
O tempo - revirando as gavetas da memória, destravei aquela onde guardara minha infância. Tudo um pouco já desbotado, é bem verdade... Mas qual não foi a surpresa quando, ao fechar os olhos, ainda pude sentir o arrepio do dia em que desci desgovernada a maior travessa do bairro montada na bicicleta vermelha com cestinha, a tristeza quase infinita diante da morte do amigo-bicho, a frustração pela descoberta de que jamais poderia voar, a crise de riso incontrolável pela travessura contra o irmão tão inocente e generoso e, principalmente, a taquicardia pelo primeiro bilhete de amor recebido e que dizia apenas assim: "você é minha namorada."
Ai o bilhete, ai o amor. Depois que li, saí correndo pela rua, entrei em casa feito um furacão, me tranquei no quarto, apaguei as luzes e fiquei sentada no escuro, aterrorizada por ter sido descoberta. Foi a primeira vez que odiei alguém... Logo ele, o melhor amigo. Na manhã seguinte, um aviaozinho de papel sobre a minha carteira no colégio trazia a mensagem: para aonde as meninas correm?
Só sei que ainda não encontrei a resposta.
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