sexta-feira, 27 de março de 2009

E depois de tudo, o desafeto

A alegria das manhãs de sábado. O jardim florido margeava as escadas de concreto. O banho de mangueira no quintal da casa grande. As pequenas reuniões em família. Os churrascos. O amigo oculto. Os primos em volta da mesa. As brincadeiras. A zanga dos adultos. Os tombos de bicicleta. O descobrimento das palavras proibidas. A escolha entre o gibi e o biscoito. O clube da madrugada. Os piques. As rodas. O riso.

A história da sopa de rosas vermelhas, de vez em quando, aparece para mim. Como também a do cabo do pente queimado e a da sigla do PDT escrita a lápis atrás do armário. Lembro-me bem da casinha de madeira pendurada na parede da casa de minha avó e de que, brincando de pique esconde com duas das minhas, ganhei uma cicatriz no lábio. São inúmeras as recordações. Mensagens de um passado que ficou guardado em uma caixa no fundo do armário, de um tempo empoeirado que parou.

Hoje, após a comemoração dos muitos anos cumpridos da matriarca da família, sinto que empalidecemos. Nunca estamos juntos. E quando estamos, nos noto distantes. Almas perdidas dentro de seus próprios limites e manias. Já não nos dizemos muita coisa e se dizemos é sempre da boca para fora. Nos suportamos e isso nos basta. Ainda que não devesse.

Hoje não há mais daquelas rosas. Tampouco os pequenos em volta da mesa. E nem aquela alegria. E menos ainda a ingenuidade. Não sei em que momento essa relação foi sendo enfraquecida, recortada, desmantelada, sufocada. O engraçado é que não sinto saudades. Ás vezes só um pouco de vergonha. Vergonha por participar desse circo de simulações e não reagir. Vergonha de não tentar responder à altura aos que estão perdendo o respeito aos laços e a memória.

E por um momento falávamos de uma solução, de um resgate.

A conclusão é a do conformismo com o não.

Não criemos falsas esperanças. Não há solução.

2 comentários:

  1. Guarde este poema. Mas leia apenas quando puder fazê-lo interio, quando estiver pronta para o resgate... que nunca virá.


    A mesa
    Carlos Drummond de Andrade

    E não gostavas de festa...
    Ó velho, que festa grande
    hoje te faria a gente.
    E teus filhos que não bebem
    e o que gosta de beber,
    em torno da mesa larga,
    largavam as tristes dietas,
    esqueciam seus fricotes,
    e tudo era farra honesta
    acabando em confidência.
    Ai, velho, ouvirias coisas
    de arrepiar teus noventa.
    E daí, não te assustávamos,
    porque, com riso na boca,
    e a nédia galinha, o vinho
    português de boa pinta,
    e mais o que alguém faria
    de mil coisas naturais
    e fartamente poria
    em mil terrinas da China
    já logo te insinuávamos
    que era tudo brincadeira.
    Pois sim. Teu olho cansado,
    mas afeito a ler no campo
    uma lonjura de léguas,
    e na lonjura uma rês
    perdida no azul azul,
    entrava-nos alma adentro
    e via essa lama podre
    e com pesar nos fitava
    e com ira amaldiçoava
    e com doçura perdoava
    (perdoar é rito de pais
    quando não seja de amantes).
    E, pois, todo nos perdoando,
    por dentro te regalavas
    de ter filhos assim... Puxa,
    grandecíssemos safados,
    me saíram bem melhor
    que as encomendas. De resto,
    filho de peixe... calavas,
    com agudo sobrecenho
    interrogavas em ti
    uma lembrança saudosa
    e não de todo remota
    e rindo por dentro e vendo
    que lançaras uma ponte
    dos passos loucos do avô
    à incontinência dos netos,
    sabendo que toda carne
    aspira à degradação,
    mas numa via de fogo
    e sob um arco sexual,
    tossias. Hem, hem, meninos,
    não sejam bobos. Meninos?
    Uns marmanjos cinqüentões,
    calvos, vividos, usados,
    mas resguardando no peito
    essa alvura de garoto,
    essa fuga para o mato,
    essa gula defendida
    e o desejo muito simples
    de pedir à mãe que cosa,
    mais do que nossa camisa,
    nossa alma fouxa, rasgada...
    Ai, grande jantar mineiro
    que seria esse... Comíamos,
    e comer abria fome,
    e comida era pretexto.
    E nem mesmo precisávamos
    ter apetite, que as coisas
    deixavam-se espostejar,
    e amanhã é que eram elas.
    Nunca desdenhe o tutu.
    Vá lá mais um torresminho.
    E quanto ao peru? Farofa
    há de ser acompanhada
    de uma boa cachacinha,
    não desfazendo em cerveja,
    essa grande camarada.
    Ind’outro dia... Comer
    guarda tamanha importância
    que só o prato revele
    o melhor, o mais humano
    dos seres em sua treva?
    Beber é pois tão sagrado
    que só bebido meu mano
    me desata seu queixume,
    abrindo-me sua palma?
    Sorver, papar: que comida
    mais cheirosa, mais profunda
    no teu tronco luso-árabe
    e que bebida mais santa
    que a todos une em um
    tal centímano glutão,
    parlapatão e bonzão!
    E nem falta a irmã que foi
    mais cedo que os outros e era
    rosa de nome e nascera
    em dia tal como o de hoje
    para enfeitar tua data.
    Seu nome sabe a camélia,
    e sendo uma rosa-amélia,
    flor muito mais delicada
    que qualquer das rosas-rosa,
    viveu bem mais do que o nome,
    porém no íntimo claustrava
    a rosa esparsa. A teu lado,
    vê: recobrou-se-lhe o viço.
    Aqui sentou-se o mais velho.
    Tipo do manso, do sonso,
    não servia para padre,
    amava casos bandalhos;
    depois o tempo fez dele
    o que faz a qualquer um;
    e à medida que envelhece,
    vai estranhamente sendo
    retrato teu sem ser tu,
    de sorte que se o diviso
    de repente, sem anúncio,
    és tu que me reapareces
    noutro velho de sessenta.
    Este outro aqui é doutor,
    o bacharel da família,
    mas suas letras mais doutas
    são as escritas no sangue,
    ou sobre a casca das árvores.
    Sabe o nome da florzinha
    e não esquece da fruta
    mais rara que se prepara
    num casamento genético.
    Mora nele a nostalgia
    citadino, do ar agreste,
    e, camponês, do letrado.
    Então vira patriarca.
    Mais adiante vês aquele
    que de ti herdou a dura
    vontade, o duro estoicismo.
    Mas, não quis te repetir.
    Achou não valer a pena
    reproduzir sobre a terra
    o que a terra engolirá.
    Amo. E ama. E amará.
    Só não quer que seu amor
    seja uma prisão de dois,
    um contrato, entre bocejos
    e quatro pés de chinelo.
    Feroz a um breve contrato,
    à segunda vista, seco,
    à terceira vista, lhano,
    dir-se-ia que ele tem medo
    de ser, fatalmente, humano.
    Dir-se-ia que ele tem raiva,
    mas que mel transcende a raiva
    e que sábios, ardilosos
    recursos de se enganar
    quanto a si mesmo: exercita
    uma força que não sabe
    chamar-se, apenas, bondade.
    Esta calou-se. Não quis
    manter com palavras novas
    o colóquio subterrâneo
    que num sussurro percorre
    a gente mais desatada.
    Calou-se, não te aborreças.
    Se tanto assim a querias,
    algo nela ainda te quer,
    à maneira atravessada
    que é própria de nosso jeito.
    (Não ser feliz tudo explica.)
    Bem sei como são penosos
    esses lances de família,
    e discutir neste instante
    seria matar a festa,
    matando-te – não se morre
    uma só vez, nem de vez.
    Restam sempre muitas vidas
    para serem consumidas
    na razão dos desencontros
    de nosso sangue nos corpos
    por onde vai dividido.
    Ficam sempre muitas mortes
    para serem longamente
    reencarnadas noutro morto.
    Mas estamos todos vivos.
    E mais que vivos, alegres.
    Estamos todos como éramos
    antes de ser, e ninguém
    dirá que ficou faltando
    algum dos teus. Por exemplo:
    ali ao canto da mesa
    não por humildade, talvez
    por ser o rei dos vaidosos
    e se pelar por incômodas
    posições de tipo gauche,
    ali me vês tu. Que tal?
    Fica tranqüilo: trabalho.
    Afinal, a vida boa
    ficou apenas: a vida
    (e nem era assim tão boa
    e nem se fez muito má).
    Pois ele sou eu. Repara:
    tenho todos os defeitos
    que não farejei em ti,
    e nem os tenho que tinhas,
    quanto mais as qualidades.
    Não importa: sou teu filho
    com ser uma negativa
    maneira de te afirmar.
    Lá que brigamos, brigamos
    opa! que não foi brinquedo,
    mas os caminhos do amor
    só o amor sabe trilhá-los.
    Tão ralo prazer te dei,
    nenhum, talvez... ou senão,
    esperança de prazer,
    é, pode ser que te desse
    a neutra satisfação
    de alguém sentir que seu filho,
    de tão inútil, seria
    sequer um sujeito ruim.
    Não sou um sujeito ruim.
    Descansa, se o suspeitavas,
    mas não sou lá essas coisas.
    Alguns afetos recordam
    o meu coração chateado.
    Se me chateio? Demais.
    Esse é meu mal. Não herdei
    de ti a balda. Bem,
    não me olhes tão longo tempo,
    que há muito a ver ainda.
    Há oito. E todos minúsculos,
    todos frustrados. Que flora
    mais triste fomos achar
    para ornamento de mesa!
    Qual nada. De tão remotos,
    de tão puros e esquecidos
    no chão que suga e transforma
    são anjos. Que luminosos!
    que raios de amor radiam,
    e em meio a vagos cristais,
    o cristal deles retine,
    reverbera a própria sombra.
    São anjos que nos dignaram
    participar do banquete,
    alisar o tamborete,
    viver vida de menino.
    São anjos: e mal sabias
    que um mortal devolve a Deus
    algo de sua divina
    substância aérea e sensível,
    se tem um filho e se o perde.
    Conta: quatorze na mesa.
    Ou trinta? Serão cinqüenta,
    que sei? Se chegam mais outros,
    uma carne cada dia
    multiplicada, cruzada
    a outras carnes de amor.
    São cinqüenta pecadores,
    se pecado é ter nascido
    e provar, entre pecados,
    os que nos foram legados.
    A procissão de teus netos,
    alongando-se em bisnetos,
    veio pedir tua bênção
    e comer de teu jantar.
    Repara um pouquinho nesta,
    no queixo, no olhar, no gesto,
    e na consciência profunda
    e na graça menineira,
    e dize, depois de tudo,
    se não é, entre meus erros,
    uma imprevista verdade.
    Esta é minha explicação
    meu verso melhor ou único,
    meu tudo enchendo meu nada.
    Agora a mesa repleta
    está maior do que a casa.
    Falamos de boca cheia,
    xingamo-nos mutuamente,
    rimos, ai, de arrebentar
    esquecemos o respeito
    terrível, inibidor,
    e toda a alegria nossa,
    ressecada em tantos negros
    bródios comemorativos
    (não convém lembrar agora),
    os gestos acumulados
    de efusão fraterna, atados
    (não convém lembrar agora),
    as fina-e-meigas palavras
    que ditas naquele tempo
    teriam mudado a vida
    (não convém mudar agora),
    vem tudo à mesa e se espalha
    qual inédita virtualha.
    Oh que ceia mais celeste
    e que gozo mais do chão!
    Quem preparou? Que inconteste
    vocação de sacrifício
    pôs à mesa, teve os filhos?
    Quem se apagou? Quem pagou
    a pena deste trabalho?
    Quem foi a mão invisível
    que traçou esse arabesco
    de flor em torno ao pudim,
    como se traça uma auréola?
    Quem tem auréola? Quem não
    a tem, pois que, sendo de outro,
    cuida logo em reparti-la,
    e se pensa melhor faz?
    quem senta do lado esquerdo,
    assim curvada? Que branca,
    mas que branca mais que branca
    tarja de cabelos brancos
    retira a cor das laranjas,
    anula o pó de café,
    cassa o brilho aos serafins?
    Quem é toda luz e é branca?
    Decerto não pressentias
    como o branco pode ser
    uma tinta mais diversa
    da mesma brancura... alvura
    elaborada na ausência
    de ti, mas ficou perfeita,
    concreta, fria, lunar.
    Como pode nossa festa
    ser de um só que não de dois?
    Os dois ora estais reunidos
    numa aliança bem maior
    que o simples elo da terra.
    Estais juntos nesta mesa
    de madeira mais de lei
    que qualquer lei da república.
    Estais acima de nós,
    acima deste jantar
    para o qual vos convocamos
    por muito – enfim – vos queremos
    e, amando, nos iludirmos,
    junto da mesa
    vazia.

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  2. "PÊ - DÊ - TÊ, PÊ - DÊ - TÊÊÊÊ, o povo, Brizola e vocêêê!!"

    Cara, fora de sacanagem, isso é triste. Mas que sirva de lição pra daqui por diante tentarmos não repetir o que hoje desaprovamos.

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