Faroleiro,
A minha urgência é tão grande que ao escrever chego a comer sílabas.
Tenho pressa.
Salto páginas.
Atendo mil telefonemas.
Respondo em monossílabos.
Respiro fundo. Profundo.
Suspiro.
Aspiro.
Raciocino, mas não penso.
Observo o mundo. Escuto histórias. Acho graça de tudo o que é sem graça.
Tudo isso porque ando em busca do descompromisso. Do ponto entre o vivenciar sem a entrega, sem um termo de responsabilidade. Não quero o laço envolvente que me enforca, que me prende. Não quero perguntas nem reclamações. Quero apenas ficar aqui, comigo, mesmo que o aqui não seja aqui, de fato. Quero entender meus pensamentos, avaliar minhas intenções, rever meus valores... sem interferências próximas alheias. Quero impor-me desafios para ultrapassá-los. Quero vingar-me da angústia com as minhas conquistas. Estou farta das manchetes, dos horários, da internet, da TV, do lixo nas mentes e nos estômagos, das crateras nas ruas e nos corações.
Todas as manhãs caminho alguns minutos bem devagar, contando os passos, divagando sobre essas e outras questões. Apesar da urgência que me maltrata quase que o tempo todo, sei que ainda tenho tempo suficiente para refazer esses trajetos.
Até quando? Não sei e, por hora, acho isso bom. Vejo com simpatia o caminhar sem a preocupação do precavido, sem a desconfiança do porvir, sem o medo da queda ou do fracasso. Com ou sem pedras, viver nunca foi fácil. Por isso não almejo a felicidade plena, posto que bem dito “a felicidade nunca é grandiosa”. Simplesmente prezo pela satisfação completa dos meus desejos, mesmo os mais inconstantes, os mais duvidosos, os mais sórdidos e/ou sagrados. Almejo somente por um sentimento de alcance, de capacidade, de honestidade comigo mesma, carregando a certeza de que, indiferente a todos os contratempos, eu tentei ser íntegra com quem eu me importo e, de uma certa maneira, com quem se importa comigo.
Um beijo.
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