Meus queridos, vocês que sabem quem são,
As discussões de hoje transitaram por temas como dignidade, fuga, humor, literatura, desapego, amor, busca, encontros... Aproveito o espaço, o convite e a chance para escrever, receber e endereçar-lhes cartas. Cartas de novidades, de satisfação, de saudades, de queixa, de compartilhamento, de amor, de frustração. Cartas de amizade, de cobrança, de resgate e de despedidas. Cartas de despedidas. Estou sempre de saída e de chegada, com as portas dos fundos e da frente sempre abertas. Se isso é fuga ou decisão previamente tomada, agendada, com firma reconhecida e legalizada, é uma questão de referencial. Não tomo minhas despedidas como fuga. As interpreto como um momento dado a determinadas circunstâncias. Tolero bem as distâncias, mas não aprecio o momento da aproximação de uma despedida.
Quantas cartas minhas encontram-se perdidas em gavetas e armários pelo mundo? Quantas foram rasgadas ou queimadas? Quantas estão perdidas em páginas de livros lidos, semilidos ou esquecidos? Quantas viraram rascunho, marcador de texto, papel higiênico, verso de receita de bolo ou de páginas de recados? Quantas ainda são mantidas em segredo? Quantas ainda encontram-se lacradas? Quantas foram extraviadas e não chegaram ao seu destino? Quantas foram roubadas?
Só sei que escrevo cartas. Essa é minha única certeza. Escrevo cartas para desabafar, desatar nós, mostrar que lembrei ou avisar que pretendo esquecer. Escrevo cartas para treinar a caligrafia, para testar canetas, para fugir do vício do computador. Escrevo cartas mais para que me amem ou me odeiem e menos para que me esqueçam. Escrevo cartas com a esperança de ser protagonista de um grande achado daqui a meio século. Escrevo cartas para amansar o pensamento e desafogar o coração.
Por vezes, escrevo cartas para não enviá-las, apenas para me conformar por tê-las escrito. Escrevo cartas para descobrir até quanto eu gosto ou desgosto das coisas, até onde posso, até onde gozo ou sofro. Escrevo cartas para liberar minhas limitações, para conhecer e descobrir as pessoas e o mundo, para contar segredo e pedir sigilo.
Escrevo cartas para perdê-las.
E perdendo-as, esqueço que ao tê-las escrito posso ter chorado, posso ter sofrido, posso ter me entregado em demasia.
E encontrando-as, me lembro de passados, de histórias, de cenas inesquecíveis e de outras que, por precaução, evito rememorar.
Cartas, benditas ou malditas, polidas ou escrachadas, formais ou escatológicas, em papel de carta ou papel de pão, curtas ou longas, de declaração de amor ou de ódio, de descaso ou desespero... sempre são endereçadas a alguém. Esta é para vocês e isso já me basta.
Me despeço de vocês e desta carta com a pena de quem se despede de alguém querido, sabendo que com ele dividiu partes de sua vida e que, independente das cartas que deixaram de trocar no decorrer de suas vidas, entendem que o laço que os une é invisível, porém concreto.
Até breve.
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