quarta-feira, 3 de junho de 2009

Entre um café e outro

- Uma folha em branco é um convite tentador, não é?
- Hã?
- Uma folha em branco... é um convite e tanto, não acha?
Ela consentiu com um gesto e sem nenhum entusiasmo, mal suspeitando que tratava-se dela.
Ele apertou entre os dedos a folha de papel e impregnou de sua lisura os sentidos. Virando-a delicadamente, como se não soubesse o que encontraria no verso daquela página, ousou surpreender-se com o mesmo vazio, a mesma brancura, quando ela pousou os grandes olhos marrons delicadamente sobre os dele. Olhava de um olhar lento, demorado, como se pudesse compreender mais pelo tanto que lhe chegava aos olhos do que aos ouvidos.
Enquanto ela recolhia lentamente os olhos em direção às ordinárias tarefas do dia, um grito de pássaro ecoou dentro dele e, lançando à mão a caneta, pôs-se a escrever um poema antigo. A tinta vermelha ofereceu-lhe o acaso, pois tentou duas ou três canetas azuis e pretas que vieram a falhar. Quando terminou de escrever quis julgar se eram verdadeiros os versos, mas percebeu que, de revéz, o poema o houvera escolhido. Então seu coração aquietou-se por um segundo. Mas entregou-se novamente aos versos vermelhos e verdadeiros, agora escravos do papel, e num impulso de libertá-los, fez da folha um barquinho, atirando-o ao mar branco que se abria vasto a sua frente.

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