terça-feira, 23 de junho de 2009
Desalinho
Sentia o trépido do atritar de rodas da aeronave na plataforma de pouso do aeroporto. Era dia, mas ainda não tinha noção do horário local. Era Barajas. Trazia no peito a expectativa de um futuro bom, ainda que incerto e o Tum-tum-tum-tum da emoção do desvendar de uma nova realidade. Era verão. Era dia e ela tinha fome. Era dia e ela tinha ânsia. Ainda era dia e ela tinha pressa. Tomou o primeiro ônibus em direção ao Sul. Carregava todas as malas sem muito jeito, mas com toda determinação e cuidado. Era tudo o que tinha e era dia. E ainda tinha toda a noite do primeiro dia. Toda a surpresa de cada fim de estrada até seu destino, daquele princípio de entardecer. Acomodou-se nas primeiras poltronas, organizou seus pertences. Todavia estavam todos lá, pensou. Sorriu. Respirou fundo e começou a procurar em volta, um rosto familiar, um olhar caridoso, um esboçar de sorriso, um reconhecimento. Achou! Não exitou em aproximar-se. Ele estava ali tão acessível e quieto, tão como era e ela ainda não sabia. Não pestanejou em questioná-lo, em convidá-lo, em ouvi-lo. E desse primeiro diálogo nasceu sua loucura, seu desalinho, sua amargura. Amou-o tanto a ponto de se perder, de se desesperar, de enlouquecer. Amou-o até onde não mais cabia. E de tanto amá-lo passou a duvidar desse sentimento. Não podia ser algo natural. Decerto fora magia, mandinga, encosto, carma ou algo similar. Na dúvida, engolindo o sofrimento, decidiu esquecê-lo para redesenhá-lo, reinventá-lo. Talvez com um outro formato, linhas, texturas e cores novas, ele voltasse a ser o mesmo daquele dia do ônibus. Tentou, em vão, até suas forças fenecerem. Perdida entre traços e aquarelas, adormeceu profundamente. No sonho, estava feliz, adentrando um ônibus sem direção definida, carregando malas e ilusões e, nas mãos, apenas um bom e velho romance de um amor louco.
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