pedras
feitas de mim
sobre os ossos seu peso
e nos pés seus estragos
produtos do que fui
são o que sou
e sua carga
em meu sem jeito de carregá-las
ao sopé da montanha
parece mais grave
parece-me a hora de alimentá-las
preparo o alimento
reparto
separo a parte mais nobre
sirvo a todas
esfria meu prato
e a fome disfarço
sorvendo momentos
há medo
e muito as protejo de tê-los
bastam a mim
eu os trato
a elas reservo o leito
dos rios, calores da tarde
o toque da relva
visões de um vale
ensolarado
planejo
a verde humidade
brotar
há medo
calculo nossa escalada
passo a passo preciso
o ritmo de cada passada
em vão, matemática
é nada
trago os ombros já esfolados
as pernas lerdam cansadas
e há ainda o que não se pode
controlar: tormentas
animais vorazes
avalanhces
tempestades
a velocidade do mundo
ao mundo cabe
determiná-la
sou apenas pedra e
minhas pedras a carregar
sigo
subo
rumo ao cume
piso em falso
perpasso
o peso é demais
resvalo
no limo de outra pedra
e caio
e minhas pedras
tão bem cuidadas
à custa de dores
escaras e noites
em claro
caem
sem que eu possa
ampará-las
depois do susto
nada (dizem)
só uma lasca
e uma mágoa
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