Para qualquer Santinha dos pés pequenos.
Santinha, quando eu morrer eu quero ir pro céu, porque o inferno é quente e faz de mim alguém que peca sem nem saber... É intuitivo - o corpo vai, simplesmente, e não há castigo para a fatalidade.
Lhe suplico que venha me buscar com a ternura e a leveza de sempre, mas aviso dos perigos da empreitada pois haverá, estou certa, outros à minhas espera não tão bem intencionados quanto você. Sim, sim - reconheço que infringi certas regrinhas mas, infringindo-as, fiz alguém feliz e isto conta, não é? Deveria...
Santinha, não estou sendo intrometida nos assuntos Dele, mas já que amei e fui traída, e traí outros que me amaram, e toquei - ora com maldade, ora com devoção - e fui tocada por mãos menos puras e ainda mais desmerecidas, então está tudo matematicamente compensado. Foi assim que aprendi e o que vale, na hora H ou no dia D, é o que se sabe no ato.
Quero ir pro céu, quero muito e prometo me comportar. Juro de pés juntos e mãos para frente: este o único modo que conheço pra não roubar na promessa. Eu posso fazer graça pra outros santos e ficamos todos rindo distraídos na eternidade. Que tal? Posso também falar alguns versinhos que sei de cor e ensaiar com você passos novos pro Ballet das Nuvens... (aquele espetáculo que inventei nos meus sonhos, com orquestra de anjos e platéia de crianças sorridentes).
Tudo que sei é que eu sou boa! Sou mesmo, avalie: Eu cozinho pros amigos, compro pão pros meninos desabrigados da Glória, presto muita atenção na fala do outro, telefono antes para avisar da visita, telefono para desmarcar a visita, parto quando indesejada e fico quando querida, sou generosa e escrevo poesia e - principalmente, eu rio...
Eu rio o tempo todo enquanto choro em segredo. E se posso um gran-pliè de vez em quando é porque você me escuta e vela meu sono de bailarina namorada da tristeza...
Santinha, não esqueça, quando eu morrer eu quero ir pro céu.
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