domingo, 31 de maio de 2009

adeus, adeus meu rouxinol

querida,

O teu adeus era tão certo que quando bateu em minha porta o relato do teu último ato... Eu já sabia o que era. Não precisaria de mensagem alguma, bastava vê-la para saber que as malas sempre estiveram prontas - apenas o destino era dúvida. Quantos mares foi preciso desbravar para saber o porto de sua morada? Taí coisa que ninguém poderá medir, porque esta aventura da descoberta de si mesma é íntima a ponto de não ter nome. Alice, há algo que sempre quis saber a seu respeito e me dediquei a observá-la mais de perto na tentativa de desvendá-la... O teu segredo ainda não sei, mas sinto. E senti-la tem sido de alguma gravidade e convicção inquestionável: o momento singular entre o rufar dos tambores e o salto triplo mortal do acrobata. Maestro: dê-me a canção derradeira que hoje a noite é de gala... e Despedida.

Um abraço de desenho animado com braços elásticos do tamanho do mundo.
tumtum-tumtum-tumtum-tumtum!!!
Sabe, Alice, não imaginava andar tão só. Seu anúncio de despedida me pôs no olho de um furacão, onde tudo é vento e imobilidade. Não bastasse isso, os anos me colocaram à porta, todas as manhãs, garrafas de leite, pães frescos e o jornal diário. Poderia não as ter bebido, não os ter comido, jamais ter lido. Mas alimentaram meus dias, construiram minha história os periódicos; paguei por eles e minha obrigação é calar. Acontece que já não sou aquele e por isso me sinto estranhamente só. E agora, sua coragem (eu sei que há medo, mas sempre há, e o que fica é a história dos que seguiram, apesar dele) me coloca em xeque. Porque queria ser como você, apertar os olhos na direção do horizonte, escolher um pouso distante, abrir as asas e atirar-me no vazio (é alta a torre do farol). Minha vontade é tamanha, um querer sem fim corre nas minhas veias, mas corro sobre trilhos. Minha fornalha arde em possibilidades, minhas caldeiras encontram-se em seu limite, sou pura potência, mas a máquina está debreada... e quando move-se, só os trilhos. Então, estou sempre à margem das mesmas paisagens e ainda que leste ou oeste ofereçam paragens novas, diferentes climas, geografias sedutoras, desafiar os trilhos não posso, porque não sei. Além do mais, aquilo que verdadeiramente somos não pode ser aprendido. Senão, ah, quantas lições desse nosso convívio já teria eu incorporado! Já não haveria trilhos, nenhum medo capaz de frear o desejo de seguir, livre; não haveria nada além de nossas risadas, feitas de matéria alguma, feitas de nós mesmos e de nossa humanidade... e o vôo, verdadeiramente.
Tudo que posso dizer cabe nisto: quando pousar os seus olhos sobre as montanhas do outro lado do atlântico, quando puser na boca o sabor distante de outra terra, quando brincar as canções de muito longe e abrigar-se no abraço do seu homem, quando pousar os pés no chão de sua nova casa, algo seu vai estar aqui, sorrindo em mim, apesar da torre, dos trilhos ou da paisagem.

Vai brilhar, Alice!

sábado, 30 de maio de 2009

quase-resposta

Faroleiro,

Já há muito que eu mesma não sei de mim; me arrisquei numa aventura de palavras encantadas que prometiam incendiar minha vida morna... Mas há coisas que precisam mesmo ser ditas, não basta estarem cuidadosamente desenhadas nas entrelinhas. Eu, quando tive a chance, calei. E o que levei pra casa foi a lembrança de pequenas faíscas entre um olhar e outro, o lamento pela estranheza do abraço último – a prova inconteste de que entre aqueles dois corpos a se despedir na esquina não haveria entrega senão a minha. Pois temo nada ter a lhe oferecer agora... O amor veio e devorou tudo; inundou tudo; quebrou tudo. Nestes tempos de silêncio e noites frias, eu apenas poderia lhe narrar o que não houve e, ainda assim, duvido que minhas verdades inventadas lhe distrairiam a ponto de parar o tempo. Aliás, pare o tempo agora e talvez sobre algum fiapo de delicadeza da Bailarina que um dia eu fui.

É inverno aqui.