E sentiu a vista queimar como se lágrima fosse brasa. Não ouviu, leu. Leu com olhos vermelhos metade impotência, metade sangue-quente de quem teve no passado estrela no peito e um ideal: queria a coisa certa, apenas. (...) É claro, passados tantos anos e algumas decepções, provavelmente se contentaria com a coisa errada travestida de correta, desde que a máscara fosse bem feita; ser conivente com o abuso descarado das artimanhas do outro não cabia naqueles olhos... Estava tudo ali, tão desleixadamente dissimulado que a vontade era dizer letra por letra:
F-A-L-C-A-T-R-U-A.
Era uma indignação desmedida, ainda maior diante do discurso retórico e ofendido da parte desmascarada. Mas estava segura: não há castigo para a honestidade. Pior seria a comiseração íntima de se calar, simplesmente. Então disse. Não a palavra 'falcatura' como gostaria, mas disse levemente: negligência. disse: benefício a terceiros em detrimento do interesse público. disse: justifique a opção pela operação desvantajosa. Disse... Disse com palavras de veia alta, pulsante. Disse firme e sem delongas, mas com toda a polidez possível. Toda a polidez plausível quando se aponta o dedo na cara de Deus e fala pra ele: eu vi.
Mas Deus é Deus.
E sentiu a vista queimar e entendeu que lágrima é mesmo brasa, só que ninguém sabe.
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