Ela desce do ônibus e começa a subir a ladeira com um certo desânimo. O ar está úmido. O dia quente. A rua vazia confirma um sentimento estranho. Desolação. Enquanto sobe em direção à casa, pensa no seu dia, nos afazeres pendentes, no que não fez, no que não quis fazer.
- Os questionamentos são sempre os mesmos... - assumiu sua fraqueza para si mesma. Deprimia-se com tudo e todos ao se redor. Sentia-se, naquela tarde, especialmente bege.
Riu, sem graça, de si mesma, do seu tolo desalento. Lembrou-se do clássico de Aldoux Huxley, “Admirável Mundo Novo”, com sua rede de mundos entrelaçados. O mundo dos alfas, betas e gamas. E lembrou-se de que durante o dia havia cumprimentado pessoas de todos esses mundos, travestidas por seus macacões de cores desbotadas: azul, laranja, cinza, bege. Não conseguiu passar despercebida pelos idiotas alfas, ditos todo poderosos, que sempre fazem questão de um falso sorriso, um fraco aperto de mão, um olhar submisso.
Lembrou-se com tristeza das pessoas bege, pura amargura. Bege como um dia sem sol, pálido bege sem sangue corrente, melancolia-apatia bege, estático bege. Lembrou-se dos desdobramentos das opções ou inopções da vida, dos sustos dos trilhos descarrilados, dos consequentes desvios de caminhos, da dor e da desesperança de perder-se. O destempero de sentir-se morto em vida.
Impetuosa, quis subir ladeira acima correndo, gritando aos quatro ventos. A cada passo, desejava transformar tudo em vermelho ira, em azul turqueza, em força, em vida. Mas o ar pesado dificultava o impulso. E assim, consumida, seguia ladeira acima. O dorso curvado, com as gotas de um suor salgado deslizante sobre a pele seca, os pés molhados dentro dos sapatos, os cabelos desarrumados e emaranhados pela brisa quente e leve que insistia em soprar.
Soledad... D. Maria da Piedade ('No Moinho' de Eça de Queiroz)...
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