Ouvia um mestre falar sobre o Brasil. Dizia tudo o que eu penso. Dizia tudo o que quase todo mundo que pensa, pensa. Senti um ímpeto de alegria. Uma fisgada de felicidade por compartilharmos do mesmo pensamento. Uma emoçãozinha orgulhosa de um sentimento que ainda tenho de salvação. De que tudo ainda não está perdido. Um leve sopro de estímulo, de vontade de não me render. De lutar, de encarar, de pagar para ver. Saí do museu, feliz. O mestre falou. Está dito. Concordo plenamente. Vai ser diferente! Entretanto a incongruência aparece quando menos esperamos. Tinha tudo para acabar bem. Tinha tudo para o dia terminar com a ilusão do gosto adocicado.
O fim de tarde tirou o doce da minha boca. O ônibus lotado me arrebatou. O cheiro azedo do ambiente me empestou. Era um misto de suor de gente, com esgoto de rua. Um ruído descabido. Uma histeria sem razão. O calor ajudava ao caos. E tudo isso junto fazia meu cérebro funcionar ao contrário.
- Como é que pode isso? – sussurrei para dentro.
Me sentei e observei. Absorta. Boquiaberta. O caos generalizado havia se implantado. Uns jogando lixo da janela. Outros utilizando por pura ignorância proposital o assento como se fosse um pedal, com seus pés molhados de uma lama de esgoto e areia de praia.
Não me contive. Por um momento, embebida pelas palavras do mestre, pensei que se eu interviera na cena, conseguiria retrocedê-la de modo a fazer com que as coisas acontecessem de uma forma diferente. Não consegui.
A minha inserção tinha tudo para ser bem sucedida, mas não foi. Fui derrotada pela força da inconsciência, da imprudência e da imoralidade. O escárnio do outro venceu, mais uma vez. E eu não me atrevi a balbuciar sequer mais uma palavra.
Será que o mestre não tinha razão? Será que eu penso mesmo ao contrário? Será que a vida tem de ser, de fato, tão dura a ponto de todos quererem validar seus despropósitos e as suas individualidades, em detrimento de um bem comum? Onde fica o outro nessa questão? Onde fica o sentimento de coletividade? Não sei. Às vezes começo a acreditar que eu estou do lado avesso.
Ao ver que o tempo já estava fechado por aquelas bandas, a chuva aproveitou para dar o seu adendo. Veio com tanta intensidade acompanhada de um vento tão forte que em poucos minutos inundou as ruas e arrancou árvores.
Me encontrava só naquela praça, com os pés submersos em uma água turva. Sentia os plásticos e todo tipo de sujeira nadarem entre meus pés. Ao mesmo tempo os pingos grossos de uma tempestade clara escorriam pelo meu corpo e encharcavam roupas e acessórios. Já não restava muita coisa. Nem dor, nem desespero, nem indignação. Apenas chuva.
Ainda assim, admirava o mestre. Admirava a bravura da sua ingenuidade madura e a sua avidez por vivenciar dias melhores no topo de seus oitenta anos.
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