Hoje prego o silêncio. O silêncio dos perdedores. O silêncio dos envergonhados. O silêncio dos fracos. Hoje te suplico que não me pergunte, não solicite minha opinião. Quero ficar em silêncio, por favor. Quero poder não escutar a minha voz. Não quero sentir a vibração do ar passando pela garganta e saindo em forma sonora. Apertei o botão de mudo para presentear-me com o meu silêncio. Se a boca falar menos, é possível que a cabeça trabalhe mais. Que assim seja. Amém.
Não fale comigo, não! Não me olhe assim como se esperasse uma resposta. Hoje não posso. Não pergunto e não dou explicações. Simplesmente. Hoje prefiro ficar escutando canções e escrevendo. Mas em extremo silêncio! Apenas concedo permissão aos sentimentos que me golpeiam, às minhas dores musculares de exercícios e excessos, ao cansaço e à preguiça. Hoje faça o favor de não me ligar. Não me convide para nada! Não me dirija palavra. Te tenho apreço, mas quero ficar sozinha. Entenda, só hoje. Em silêncio. Obrigada.
só consigo pensar numa canção, entoada baixinho, só voz e a batucada quase muda do tamborim:
ResponderExcluir"Silêncio por favor enquanto esqueço um pouco a dor do peito, não diga nada sobre meus defeitos, eu não lembro mais quem me deixou assim..."
e desculpe a insistência, mas relendo - porque eu sou do tipo que fica a reler e reler - me lembrou um poema do meu tio-avÔ, o Pessoa mais famoso (hehehe):
ResponderExcluirAdiamento
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o rnundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...