domingo, 25 de janeiro de 2009
Fevereiro
É-feito carnaval: 3 doses de folia e uma ressaca cinza pelo excesso de confete e serpentina. Ele me escreveu um poema de amor bonito e triste: Parecia o baile de uma vida passada animado pela orquestra desafinada dos músicos de gravata-borboleta no verão. O palhaço flertando com a bailarina do soldadinho de chumbo - todo ano a mesma coisa: um quebra-nozes, uma quarta-feira de cinzas! O palhaço, a bailarina e o soldadinho: a ciranda do poeta que eu nunca li mas sei de ouvir dizer. Ele disse assim: Doutor, e se não passar? Na rua a multidão atrás da banda, eu atrás da multidão na rua. Passa, uma hora passa meu filho e não vai ser nada além do retrato desbotado perdido na gaveta emperrada do armário de quinquilharias. A banda, a multidão e a rua. Olho pra cima e me vejo velhinha acenando da sacada do oitavo andar da Travessa. Minha rua chama assim: Travessa. A banda toca o poema bonito e triste que ele me escreveu depois da consulta, mas o refrão é tão embaralhado que eu na varanda velhinha não escuto o verso mais importante e fico a sorrir e a acenar, sem entender a proposta de amor feita pra mim na rua atrás da multidão da banda de borboletas cantadoras que um dia eu segui sem saber que eram meus o verso, o poema e o soldadinho. Olho pro alto e me vejo velhinha acenando da varanda e volto a rodopiar na sapatilha de ponta metade quebra-nozes metade quarta-feira de cinzas: o amor É-feito carnaval, a bailarina e o palhaço no porta-retrato empoeirado, o soldadinho e o poema que eu nunca soube que era meu.
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