sábado, 31 de janeiro de 2009

Silêncio

Hoje prego o silêncio. O silêncio dos perdedores. O silêncio dos envergonhados. O silêncio dos fracos. Hoje te suplico que não me pergunte, não solicite minha opinião. Quero ficar em silêncio, por favor. Quero poder não escutar a minha voz. Não quero sentir a vibração do ar passando pela garganta e saindo em forma sonora. Apertei o botão de mudo para presentear-me com o meu silêncio. Se a boca falar menos, é possível que a cabeça trabalhe mais. Que assim seja. Amém.
Não fale comigo, não! Não me olhe assim como se esperasse uma resposta. Hoje não posso. Não pergunto e não dou explicações. Simplesmente. Hoje prefiro ficar escutando canções e escrevendo. Mas em extremo silêncio! Apenas concedo permissão aos sentimentos que me golpeiam, às minhas dores musculares de exercícios e excessos, ao cansaço e à preguiça. Hoje faça o favor de não me ligar. Não me convide para nada! Não me dirija palavra. Te tenho apreço, mas quero ficar sozinha. Entenda, só hoje. Em silêncio. Obrigada.

2 comentários:

  1. só consigo pensar numa canção, entoada baixinho, só voz e a batucada quase muda do tamborim:

    "Silêncio por favor enquanto esqueço um pouco a dor do peito, não diga nada sobre meus defeitos, eu não lembro mais quem me deixou assim..."

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  2. e desculpe a insistência, mas relendo - porque eu sou do tipo que fica a reler e reler - me lembrou um poema do meu tio-avÔ, o Pessoa mais famoso (hehehe):

    Adiamento

    Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
    Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
    E assim será possível; mas hoje não...
    Não, hoje nada; hoje não posso.
    A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
    O sono da minha vida real, intercalado,
    O cansaço antecipado e infinito,
    Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
    Esta espécie de alma...
    Só depois de amanhã...
    Hoje quero preparar-me,
    Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
    Ele é que é decisivo.
    Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
    Amanhã é o dia dos planos.
    Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o rnundo;
    Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
    Tenho vontade de chorar,
    Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

    Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
    Só depois de amanhã...
    Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
    Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
    Depois de amanhã serei outro,
    A minha vida triunfar-se-á,
    Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
    Serão convocadas por um edital...
    Mas por um edital de amanhã...
    Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
    Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
    Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
    Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
    Antes, não...
    Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
    Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
    Só depois de amanhã...
    Tenho sono como o frio de um cão vadio.
    Tenho muito sono.
    Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
    Sim, talvez só depois de amanhã...

    O porvir...
    Sim, o porvir...

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