quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

quarto escuro

Minha indignação é bruta: quer pegar o outro pelos cabelos e arrastá-lo. Quer dizer todas as verdades dissimuladas, quer xingá-lo. Quer xingá-lo muito, quer gritar ofensas em vários idiomas. Quer abandonar o barco, quer marcar gol contra, quer tirar as cartas da mesa, quer contar o final do filme. Minha indignação é bruta, ora. Quer quebrar a guitarra, tirar a dançarina do palco na marra, quer espatifar a garrafa no balcão, quer derramar o leite, a cerveja, a vodka, o whisky. Minha indignação quer derramar tudo! Queimar tudo! Esquecer tudo! Quer rasgar os livros do Saramago, quer arranhar os discos dos Beatles, quer rabiscar o quadro da Monalisa. Minha indgnação é bruta, já disse. Quer especular na bolsa, quer flertar com a mulher do próximo, quer roubar os donativos da missa, quer tacar pedra no telhado dos outros, do outro, no seu... Minha indignação é bruta e feia. Tão feia que nem sai de casa.

2 comentários:

  1. Um quarto escuro está sempre cheio. É sólido e negro; jamais por suas janelas ou frestas ou portas qualquer luz... qualquer som que reparta o silêncio de um quarto escuro jamais transborda. Um quarto escuro é profundo, abismal e cheio... mas nunca transborda.

    Vanessa,

    Não consigo comentar sem as minhas ferramentas... rs. Você não escreve, você ordena: sinta! e fica difícil fugir. Maravilha.

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