ela terminou de calçar as sapatilhas e pôs-se de pé. havia pelo menos dez minutos desde que ouvira os primeiros acordes da banda mas, estranhamente, em vez de sentir pressa como nos dias anteriores, ficou ali parada, em frente ao espelho, olhando a fantasia que em poucas horas estaria velha. Dias atrás seus olhos brilhavam enquanto desembrulhava o presente que a mãe trouxera. Agora já não servia.
Deve ser da pior qualidade - pensou. Onde já se viu uma fantasia deixar a gente dolorida?
Esfregou as palmas das mãos úmidas na barra da saia enquanto se dirigia até a sacada. - Soldadinho! Soldadiiiinho!
O soldado apareceu imediatamente na sacada do apartamento ao lado.
- Você está pronta? Vamos?
- Estou, mas... eu não sei. Acho que hoje não vou.
- Mas... mas hoje é a despedida do carnaval; a banda vai tocar as músicas mais belas. E também, amanhã eu volto pra casa da minha madrinha e só venho no Natal. Aconteceu alguma coisa?
- Não... é que eu não tô me sentindo bem.
- Você tá doente, bailarina?
- Não! Eu só tô... ah, não sei... Tô cansada. A gente já foi na pracinha quatro dias e a banda vai repetir as músicas que já tocou. Todos os anos você passa o carnaval aqui e ainda não viu que todos os carnavais são iguais?
- Mas a gente tinha combinado que hoje eu ia dizer aquilo, lembra? A gente combinou.
- Tá, tá bom, garoto. Mas eu vou ficar só um pouco. Volto para o almoço. Vou avisar a mamãe.
- Vou chamar o elevador.
À medida que o som da banda ia ficando mais vibrante e luminoso, o caminho parecia esticar-se sob seus pés. Quando chegaram na praça, escolheram um banco do lado oposto ao do coreto em que a banda executava suas marchinhas. Sentaram-se em silêncio.
Ele olhava para o chão quando mergulhou no verso que falava de saudade. Ela olhava para os mascarados e se perguntava: como seriam seus rostos?
- E então?
- O que?
- Você acha que, bom, aquilo que a gente combinou.
- O que é, garoto? - indagou impaciente com o olhar ainda perdido em seus questionamentos.
E enquanto outra pergunta girava na cabeça dela, um palhaço veio em sua direção, sem dizer nada tirou do rosto a máscara, fez-lhe uma reverência e sumiu em meio às fantasias
- O quê? - repetiu ela já sem saber sobre o que falavam.
- A surpresa que eu ia dizer.
Ela sentiu a roupa apertar-lhe o peito.
- Ah, você sempre promete que vai dizer mas nunca diz. Olha, é melhor eu ir, a mamãe disse pra eu não demorar. Você vem no natal, não vem? Então. Fica pro natal, tá bom? Você vem comigo?
- Vou.
- Então vamos.
Ele enfiou a mão no bolso e apertou o pequeno pedaço de papel preparado para o caso de um branco repentino. No papel, uma quadra trabalhada desde o natal passado aguardava seu destino:
"Quando abriguei num abraço
Teu peito em meu peito aprendiz
No meu bem-querer se fez
No teu, não sei o que fiz"
Alguns passos adiante o soldadinho tinha os bolsos vazios e a fantasia da bailarina estava manchada.
As palavras me conduziram a uma época em que as bandas de carnaval tocavam marchinhas nas praças, nos blocos e nas avenidas!
ResponderExcluirUma história revelada através de ideias que parecem dançar junto à balarina e ao soldadinho.