Me impressiono sempre que leio você, mas não mantenho um diário. Quem duvidou da beleza do seu corpo nú não pôde ver nada direito. Estava cega. Deve ter os olhos feridos, cicatrizes profundas e noites mal-dormidas. Pensei em ser o novo, mas novidades logo acabam e, no encadeamento dos instantes reside uma história. Qual TEREMOS? Pensei também que você poderia me chamar do que quisesse, porque quero muito ser outra coisa, embora nada venha a me deixar alegre e, não sei, a você satisfeita. Minha única exigência é que não haja apartheids, porque com eles nada é inteiro.
Lembrei de um poemeto de um autor sem vergonha que eu sei de cor.
"Um é aquilo feito de dois
quando não há depois"
De cor,
?
segunda-feira, 30 de março de 2009
Os nomes de Alice
* "...não se morre
uma só vez, nem de vez.
Restam sempre muitas vidas
para serem consumidas
na razão dos desencontros
de nosso sangue nos corpos
por onde vai dividido.
Ficam sempre muitas mortes
para serem longamente
reencarnadas noutro morto.
Mas estamos todos vivos.
E mais que vivos, alegres..."
Sou feito de outros sangues,
reunidos em meu corpo e meu sangue, dividido em outros corpos,
misturado a outros sangues,
segue noutros, ainda mais distantes.
O nome que tenho deram-me. O dos meus, escolhi, tentando dar a eles outro destino. Afastei-os o mais que pude de mim mesmo, como se não fossem eu, também, a correr pelos gramados, a fazer estas perguntas, a temer e duvidar... Abençoada e Coragem.
Olha. Sou aquele menino pulando no gramado... e a menina que me interroga. Quando repondo não é para ela... é para mim que respondo, e em nome de todos que vieram antes, ainda que briguemos, ainda que neguemos o nosso próprio cheiro naquele velho de antes, ainda que as rodas, os risos, as mãos entrelaçadas já não se toquem mais.
Esta palidez, repetida em cada rosto, esta distância, devida, ainda que pareça injusta, é a força que nos põe adiante; é já a resposta que bradamos, a solução e a garantia de que eles também seguirão, quando as crianças voltarem a correr em volta de uma nova mesa. Então todo o riso será recobrado, a ciranda será recobrada, a alegria virá, renovada. E nossos braços, fortes, afeitos à luta, serão postos à prova. E esses mesmos braços, doces, feitos para o abraço, voltarão a abraçar.
* "Teu olho cansado,
mas afeito a ler no campo
uma lonjura de léguas,
e na lonjura uma rês
perdida no azul azul,
entrava-nos alma adentro
e via essa lama podre
e com pesar nos fitava
e com ira amaldiçoava
e com doçura perdoava
(perdoar é rito de pais
quando não seja de amantes).
E, pois, todo nos perdoando,
por dentro te regalavas
de ter filhos assim..."
* Carlos Drummond de Andrade em "A mesa".
uma só vez, nem de vez.
Restam sempre muitas vidas
para serem consumidas
na razão dos desencontros
de nosso sangue nos corpos
por onde vai dividido.
Ficam sempre muitas mortes
para serem longamente
reencarnadas noutro morto.
Mas estamos todos vivos.
E mais que vivos, alegres..."
Sou feito de outros sangues,
reunidos em meu corpo e meu sangue, dividido em outros corpos,
misturado a outros sangues,
segue noutros, ainda mais distantes.
O nome que tenho deram-me. O dos meus, escolhi, tentando dar a eles outro destino. Afastei-os o mais que pude de mim mesmo, como se não fossem eu, também, a correr pelos gramados, a fazer estas perguntas, a temer e duvidar... Abençoada e Coragem.
Olha. Sou aquele menino pulando no gramado... e a menina que me interroga. Quando repondo não é para ela... é para mim que respondo, e em nome de todos que vieram antes, ainda que briguemos, ainda que neguemos o nosso próprio cheiro naquele velho de antes, ainda que as rodas, os risos, as mãos entrelaçadas já não se toquem mais.
Esta palidez, repetida em cada rosto, esta distância, devida, ainda que pareça injusta, é a força que nos põe adiante; é já a resposta que bradamos, a solução e a garantia de que eles também seguirão, quando as crianças voltarem a correr em volta de uma nova mesa. Então todo o riso será recobrado, a ciranda será recobrada, a alegria virá, renovada. E nossos braços, fortes, afeitos à luta, serão postos à prova. E esses mesmos braços, doces, feitos para o abraço, voltarão a abraçar.
* "Teu olho cansado,
mas afeito a ler no campo
uma lonjura de léguas,
e na lonjura uma rês
perdida no azul azul,
entrava-nos alma adentro
e via essa lama podre
e com pesar nos fitava
e com ira amaldiçoava
e com doçura perdoava
(perdoar é rito de pais
quando não seja de amantes).
E, pois, todo nos perdoando,
por dentro te regalavas
de ter filhos assim..."
* Carlos Drummond de Andrade em "A mesa".
domingo, 29 de março de 2009
para os dois
Ando um pouco descompromissada com a vida e tenho me dedicado à leitura. Me impressiona quando leio uma frase que é minha mas foi escrita por outro; é como se eu tivesse um amigo que não conheço, alguém que me escuta e que me vê em segredo. Então sorrio compreendida e escrevo no meu diário aquela mesma frase, para jamais esquecê-la. Tenho também inventado estranhos hábitos. Às vezes acordo sem saber exatamente onde... Esta tentativa de experimentar novos gostos, novos corpos, novos tatos, tantos novos e novas me deixam exausta, pois é preciso muita concentração na coisa. Outro dia mesmo dormi numa cama nova e vos digo, queridos, que foi desafiador a perda da segurança de lugar, a perda da referência de casa: é como ser livre e não saber o que exatamente fazer com isto e, assim sendo, já não chamo de liberdade. Como está sendo novo agora escrever para vocês dois ao mesmo tempo, eu que sempre quis separar um do outro, como se separados eu tivesse um pouco mais de cada um e vocês bem sabem que eu quero tudo inteiro... Pois perceberam que esta carta tem tom sério? Será que esta sou eu, então, deixada de lado a roupa que me visto todos os dias e saio pra rua? Esta séria e ousada sou eu - me olho no espelho nua e até me acho bonita. Deve ser a maturidade chegando, qualquer coisa de aceitação e deslumbramento com si mesma, ou apenas uma preguiça conformista de domingo de manhã. Não, não é preguiça, é verdade. Sou mesmo bonita nua e estando certa disso penso que é uma pena ser privilégio de poucos (e de novos que esqueci o nome ao acordar livre). Talvez devesse andar nua pelas ruas - mas isto estragaria toda a beleza do privilégio, então é prudente não esgotar a surpresa enquanto É. Alice - não quero batizá-la outra vez porque perderia uma história boa de contar, mas poderei na nossa intimidade te chamar do que queira se isto te deixará alegre e a mim, satisfeita. Faroleiro-mágico-inventor: quer ser outra coisa também? Aproveita que estou para o novo e é o momento certo de escolher, só não pense que o que TEMOS, simplesmente vira passado quando se decide o futuro: no encadear dos tempos há um caminho. Estou enigmática ao dizer, e me vejo como uma estrela de cinema sentada de pernas cruzadas, um olhar blasè e um cigarro na mão esquerda. Esperem: esta fotografia não é minha pois não tem nada de nua. A cena é:
Mulher bonita diz. (Simples assim)
Vocês , por favor, sintam a paisagem como um lugar de beleza e verdade. E música - a que toca agora é assim: "Acabou chorare, ficou tudo lindo de manhã cedinho. Tudo cá, cá, cá, na fé, fé, fé. No bu bu li li, no bu bu lilindo, no bu bu bulindo..."
E acabou mesmo. Estou bem - para além das definições.
Mulher bonita diz. (Simples assim)
Vocês , por favor, sintam a paisagem como um lugar de beleza e verdade. E música - a que toca agora é assim: "Acabou chorare, ficou tudo lindo de manhã cedinho. Tudo cá, cá, cá, na fé, fé, fé. No bu bu li li, no bu bu lilindo, no bu bu bulindo..."
E acabou mesmo. Estou bem - para além das definições.
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