Menina,
Aqui não amanhece
desde antanho,
mas não é por falta
de luz, você sabe.
Tampouco de recibos,
esses papéis tristes,
solicitados sempre com a maior urgência nas manhãs de indignação solitária e mordaz.
A mim morde-me outra fera: a do cansado de carregar as coisas alheias, do tanto de compromisso e gravidade que é preciso ter, sempre. Tudo sempre tão entrega, tão profundo, tão herança. Tudo tão marcado e rimado e partido em postas e posto às travessas de prata sobre a toalha de linho à lei da madeira da mesa. Olha a camada de gelo bem fina que à noite se forma nos córregos sobre a colina... quero ser aquela camada de gelo... que ao menor calor dissolve para entregar-se à correnteza... que não teme e não deseja... apenas É; mas acovardei-me em algum lugar do caminho e, desejoso e amedrontado, também corri, às portas do abismo onde a verdadeira riqueza esperava por mim.
Seja como for,
surpreendi-me
comovido com
sua carta.
Mais com o que
não se pode ler:
suas mãos soprando
como as de Iansã...
o cheiro dos sentimentos
encharcando o papel-tela...
a esperança de que alguma palavra venha a germinar...
...mesmo que ninguém olhe por ela.
Deve haver aí qualquer sentido.
Um beijo de gelo.
terça-feira, 10 de março de 2009
segunda-feira, 9 de março de 2009
urgente
Faroleiro, embora saiba que é minha a falta de notícias, hoje acordei demais indignada por não receber nada de seu. Pois sou um pouco avessa à matemática exata das compensações: eu digo, você responde, eu respondo, você diz. Por favor, querido, deixe de lado esta convenção absurda de quem entrega afeto mediante recibo - tudo pra mim é tão urgente, a encomenda que fiz era pra vida que passou e por pouco não percebi. Me escreva sem resposta, me escreva um suspiro, me escreva a fotografia mais bonita do seu album secreto ou, além-mar, me escreva o assovio daquela canção delicada que outro dia falamos... Sim, o assovio: desta vez não quero as palavras, eu quero o sentido. O sentido do seu mundo. Um abraço afetuoso.
domingo, 8 de março de 2009
Abandono
Hoje é um dia muito triste. Como foi também ontem e anteontem. Todos os dias são um pouco tristes e um pouco felizes. Mas os últimos têm sido muito tristes. Tristes pelo calor exagerado. Tristes pelas perdas. É estranha a construção das relações. E todavia mais é a manutenção dessas redes. Penso no apego, na carência e nos desdobramentos desses sentimentos. Nossa necessidade de que as coisas tenham um princípio, um meio e um fim. Nosso desalinho quando elas não são concluídas. Nossa inquietação. Estou inquieta e triste. Desalento e abandono. Será que ela também se sentiu abandonada? Culpa. Onde ela estará agora? Será que está bem? Será que sente dor? Hoje o que eu mais quis foi me desapegar. Hoje eu desejei esquecer tudo para não chorar, para desafogar meu peito e meus olhos lacrimosos cansados. Hoje é um dia triste e disso não posso esquecer. Hoje não a enterrei, mas foi como se a tivesse visto pela última vez. Um corpinho ainda quentinho, adormecido e tranquilo, porém sem vida, jaz no meu quintal e no meu coração. O pior já tinha passado. Agora só vejo dor e abandono.
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