domingo, 13 de setembro de 2009

Mudança

As janelas do teto do quarto espiavam inquietas o sono da menina. E quando as nuvens resolveram dissipar-se, elas puderam mostrar-lhe o novo dia que se anunciava. A menina, sentindo a claridade que vinha de fora, finalmente depertou. Ao abrir os olhos, reconheceu o lugar e lembrou que já era hora de ir. Para nao incomodar os donos da casa e com a perspicácia de um felino que se movimenta sem fazer ruído, ela deslizou pelos corredores em busca de seus pertences. Enquanto os organizava nas malas já bastante gastas por tantas idas e vindas, ela recordava suas histórias e repassava sonhos. Estava feliz? Sim. Ainda assim, estranhamente, sentia uma fina tristeza e bem sabia o por que. Sabia que nunca seria possível abstener-se da tristeza que carregava dentro, mesmo que vivesse mil e uma alegrias e que se despertasse com mil e uma manhas de sol. Uma alegria é uma alegria. Uma tristeza é um corpo intangível ligado ao nosso corpo concreto. É o pesar dos amanheceres chuvosos. É o desconforto do abandono. É o desamparo da despedida. O desejo insaciado. A vontade tolhida.

Mais uma vez olhou as janelas sobre sua cabeça. Fazia calor e já passava da hora de ir. Havia feito as pazes  com a tristeza. Hoje nao, sentia-se feliz. Fechou a porta pela última vez e partiu acompanhada pelo sol dos últimos dias do verao. 

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