segunda-feira, 8 de março de 2010

A contradição do desejo

Estou cansada
da mudança lenta dos dias

E a minha ausente predisposição ao esforço
de ser boa e coerente

Não, hoje não quero a coerência
A bondade ou a diplomacia

Hoje me preparo para a guerra, para o embate, para o debate

Quero encher uma ou duas mãos e esvaziá-las em alguém
Quero atirar olhares cheios de maldade e ira
Quero sentir o outro desfalecer lentamente diante de mim

Quero, quero sim
E por que não quereria?

Por que a obrigação de ser correta
Quando o mundo ao avesso te questiona?

Por que dizer sempre sim
Quando o corpo sente asco e nojo?

Como manter a paciência com o ruído involuntário
das velhas portas
empurradas pelo vento infiltrado por alguma fresta
Quando o que você quer é só escrever e esquecer?

Seria tudo facilmente resolvido
Se levantasse e fechasse a porta
Mas qual seria a vantagem?
Acabar com a guerra?
Abanar trapos brancos em sinal de paz?

Não, hoje eu não quero a paz.
Esse chateamento que é a tranquilidade.

Eu quero o caos
o ruído
o distúrbio
a confusão
a bagunça

Eu quero a raça
a força
a reação
a surpresa
o entorpecimento
a rebeldia
a rebelião
o confronto
a esperança
a decepção

Eu quero o rompante
o susto
a emoção
a vibração
o toque
a revelação

Eu quero tudo que pode não estar ao meu alcance
Simplesmente por poder querer

Esse vício de querer
e conquistar
e cansar
E voltar a querer
e conquistar
e cansar
..
.
.
A contradição do desejo...

Pena que nessa muda batalha
As minhas armas brancas são pouco letais
Assim vou levando uma luta interna
Sem ganhos nem perdas significaticos
Que mereçam devidos honores ou congratulações

Que as batalhas sejam infinitas
Prêmio de consolação para um coração cansado de guerra
Partido pelas duras derrotas
E acariaciado pelas pequenas grandes vitórias.

Ah, a contradição do desejo.....


Isabella Henrique – fevereiro de 2010

sábado, 16 de janeiro de 2010

Justificativa

Nada justifica teu aparente desamor
nada além do que fomos
do que somos
do que não deixaremos de ser

Apesar da ausência
da distância
do que nos faz desamar (nos)
e esquecer (nos)

Somos sim fantasmas
Tamborim sem baqueta em pleno carnaval
Cuica sem corda na roda de samba
Surdo mudo na avenida

Vivos...

Só mesmo as aparências mascaram
O que o coração tenta esconder
Estamos aqui
E na via de mão dupla
Mais um grito agudo ecoa

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Nada justifica meu aparente desamor
Nada além do que sou
Este ser mudo de gestos, um surdo ébrio
soando descompassado sem ninguém que o batuque

Um instrumento fantasma
Pouco visto e de quem se ouve apenas
rumores

Uma pele já morta

Aparentemente morta e estirada
sobre o círculo largo de madeira cujos própósitos graves
resumem-se na tua crença
de que estou aqui
e grito
dores de saudade