terça-feira, 3 de março de 2009

segunda-feira, 2 de março de 2009

?"E é de ti que não me esquecerei"

Menina, tempo é nada. Nenhuma demora desqualifica Ser. Muitas embarcações atrasam-se. Só as pedras não se atrasam. Viste as gaivotas no caminho? L E I O -TE. Quanto à correspondência, confessar é desnecessário e nenhuma chama é desprezível, mas temer? E a tudo?
Olha tuas garras. Dedica um minuto à elas, verdadeiramente: repara cada tensão fugaz que as percorre enquanto observa; vê como correspondem delicadamente ao menor desejo de movê-las... aí reside todo entendimento, não é preciso correr. Neste lugar de onde compreendes o desbotar de tudo, na metade exata do caminho, onde os mistérios estão todos desvendados e certezas determinam o que é o bastante, neste lugar onde está o teu banquinho, há apenas muros.
E nenhuma presa para fincar as tuas garras.

Um beijo e boa noite,

Faroleiro.

PS: é preciso responder à pergunta: por que elas olhariam para você?

"Lá vem, lá vem, lá vem de novo: acho que estou gostando de alguém..."

Faroleiro, desculpe o atraso. Acho que me perdi pelo caminho entre uma palavra e outra. Te escrevo devagar, como você me pediu, e desejo que a sua leitura seja assim: pausada. Pausada, mas não menos voraz. Andei bisbilhotando sua correspondência, confesso, os bilhetes de outras. Nenhum rompante de curiosidade, apenas a necessidade desprezível (mas ainda assim inflamada) de saber a singularidade de nós dois, pois temo ser para você algo diferente do que me proponho e temo ainda mais o inverso. Minha busca pela verdade e pelas respostas tem me deixado bastante cansada e sinto que já não posso correr como antes. Pior: sinto que o entendimento das minhas inquietudes desbota gradativamente meu encantamento pelo mundo e, se já não tenho o mesmo calor das cores a acalentar os olhos expostos à luz, vou – aos poucos – tornando-me devota e refém da noite. Pois aqui me encontro: na metade exata do caminho entre a vontade e a culpa, uma vez desvendado o mistério daquilo que nos une. Agora que sei, já acho que deveríamos permanecer assim: você - o faroleiro, eu - a menina; e isto já é o bastante. À propósito, acho que estou indo bem. Bem, por definição: tudo o que é bom, justo, agradável e conforme à moral. Talvez eu me limite a isto, à ironia de ter um horizonte com muros. E o mar, e o banquinho e as gaivotas cada vez mais distantes e livres... Um beijo.